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  • O Café de São Tomé Foi Esquecido Durante Quarenta Anos e Agora Merece Toda a Sua Atenção

    O Café de São Tomé Foi Esquecido Durante Quarenta Anos e Agora Merece Toda a Sua Atenção

    Enquanto o chocolate de São Tomé tem ganho fama mundial — com prémios internacionais e uma procura crescente entre os apreciadores —, o café ficou em silêncio. Durante décadas, as antigas plantações de café da ilha foram abandonadas, as árvores cresceram sem poda, os grãos caíram no chão e apodreceram, e os mestres de torra partiram ou morreram sem passar o seu conhecimento. O café de São Tomé, que no século XIX e início do século XX era exportado para a Europa como produto de qualidade, desapareceu do mapa. Agora, silenciosamente, está de regresso. E os especialistas em café de especialidade estão a prestar atenção.

    A região do Monte Café, a cerca de 700 metros de altitude nas montanhas do centro da ilha, é o coração da produção cafeeira são-tomense. Ali, numa antiga roça que deu nome a toda a zona, cultiva-se uma variedade de Arábica de origem etíope que se adaptou ao solo vulcânico, ao clima equatorial e à altitude moderada ao longo de mais de um século. O resultado é um café de perfis únicos — notas de terroir que reflectem a cloud forest, a névoa frequente e os minerais basálticos. Um café de acidez brilhante mas equilibrada, corpo médio a encorpado, com notas de frutos vermelhos, chocolate amargo e, no final de boca, um toque leve de especiarias.

    A experiência do café em São Tomé

    Visitar o Monte Café é mais do que uma degustação — é uma viagem ao passado e ao futuro da ilha. A roça, parcialmente restaurada, mantém as antigas instalações de beneficiamento: as tulhas onde os grãos eram armazenados, os descascadores manuais, os tanques de fermentação, os terraços de secagem. O pequeno museu do café conta a história da cultura, com fotografias antigas, objectos e documentos. A plantação, ainda activa, estende-se pelas encostas circundantes, com árvores antigas de troncos grossos e copas altas, cobertas de musgo e epífitas.

    A prova guiada de café — conduzida por um especialista local que conhece cada lote, cada variedade, cada método de processamento — ensina a distinguir os grãos por tamanho e densidade, a avaliar a torra pela cor e pelo cheiro, a moer na hora e a preparar a chávena com a temperatura exacta da água. A combinação com o chocolate local é uma experiência gastronómica imperdível: o cacau e o café crescem lado a lado nas mesmas roças, partilham o mesmo solo vulcânico e a mesma história. Prová-los em conjunto — um chocolate amargo de 70 por cento e um café Arábica de torra média — é perceber como os sabores se complementam num casamento perfeito.

    O futuro do café são-tomense

    O café de São Tomé não vai voltar a ser uma cultura de massa. A ilha é pequena, a área disponível para cultivo de altitude é limitada, e o modelo escolhido pelos produtores é o da qualidade, não da quantidade. Mas isso é precisamente o que torna o café são-tomense especial: é raro, é artesanal, é rastreável. Cada lote pode ser seguido desde a árvore até à chávena. Cada chávena conta a história de uma ilha, de uma roça, de uma família. Os apreciadores de café de especialidade que descobrem São Tomé ficam frequentemente surpreendidos — não esperavam encontrar no meio do Atlântico um café com tanta personalidade, tanto carácter, tanta alma.