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  • O Tchiloli Tem 500 Anos e Nunca Representou o Mesmo Espectáculo Duas Vezes

    O Tchiloli Tem 500 Anos e Nunca Representou o Mesmo Espectáculo Duas Vezes

    Existe uma tradição teatral única no mundo que só existe em São Tomé. Chama-se Tchiloli. Imagine uma peça de teatro medieval portuguesa do século XVI sobre Carlos Magno e os Doze Pares de França. Imagine essa peça a ser representada numa clareira da floresta, ou no terreiro de uma roça abandonada, ou numa rua de uma aldeia piscatória do sul. Imagine os actores com máscaras artesanais de madeira, algumas delas grotescas, outras solenes, outras cómicas. Imagine música e dança africanas a intercalarem os longos monólogos em português arcaico. Imagine o público a interagir com os actores, a comentar em crioulo, a rir, a aplaudir, a assobiar. O Tchiloli é tudo isto e mais. É uma mistura única, impossível de classificar, que a UNESCO reconheceu como Património Cultural Imaterial da Humanidade e que os santomenses cultivam com orgulho há quinhentos anos.

    A origem do Tchiloli é incerta, mas acredita-se que tenha sido trazida para São Tomé pelos primeiros colonos portugueses no século XVI. O texto base é uma adaptação de uma obra francesa medieval sobre as batalhas de Carlos Magno. Em Portugal, a peça caiu em desuso há séculos. Em São Tomé, sobreviveu, transformou-se, crioulizou-se. Os actores passaram a usar máscaras africanas. A música europeia deu lugar a ritmos locais — puíta, ferrinho, tambores. O texto em português antigo é decorado oralmente, passado de geração em geração, com acréscimos que ao longo dos séculos se tornaram parte da tradição.

    Como é uma representação de Tchiloli

    Uma representação pode durar entre duas e cinco horas, dependendo da ocasião e da energia dos actores. Não há palco fixo — o espaço é improvisado: um largo de terra batida, um terreiro de roça, uma clareira na selva. As duas facções — os cristãos e os mouros — entram em cena separadamente, cada uma com as suas vestes e máscaras próprias. Os cristãos usam trajes que lembram uniformes militares europeus do século XVIII, com dragonas e espadas. Os mouros usam vestes coloridas, turbantes e máscaras de feições exageradas. O Imperador Carlos Magno é a figura central, sempre a discursar. O traidor Ganalão é assobiado e insultado pelo público.

    A acção é lenta, solene, intercalada por longos discursos em verso. De repente, irrompe a música — tambores, palmas, canto — e os actores dançam com passos africanos, com o corpo inteiro, com uma energia que contrasta com a solenidade do texto. Depois a dança pára e a acção continua. O contraste é chocante, estranho e belo. Os actores são amadores, geralmente homens (embora haja cada vez mais mulheres), que ensaiam durante semanas antes da representação. As máscaras são esculpidas artesanalmente por artistas locais, cada uma única.

    Quando e onde ver Tchiloli

    O Tchiloli não é um espectáculo para turistas com horário marcado. É uma tradição viva que se realiza em ocasiões especiais: festas de aldeia associadas a santos católicos, celebrações de fim de ano, datas importantes do calendário santomense. As representações concentram-se principalmente entre Maio e Setembro, nos bairros do sul da ilha — São João dos Angolares, Porto Alegre, São Tomé das Águas — e nalgumas comunidades do interior. A melhor maneira de assistir é através de um guia local que mantenha contacto com as associações culturais. Não se pode simplesmente chegar e esperar encontrar uma representação. Assistir ao Tchiloli é ver a história viva — a história de São Tomé, a mistura de Portugal e África, a resistência cultural através dos séculos.